
Meu pai foi a pessoa que me apresentou as letras - literalmente.
Quando eu tinha lá meus quatro, cinco anos, no tempo em que só se ia pra creche se fosse preciso, ele pegava um quadrinho-negro (que minha mãe tão inocentemente havia comprado para que eu parasse de riscar as paredes da casa), me mostrava o ABC e como ele formava times para dar nome às coisas que me rodeavam, às pessoas que faziam parte da minha vida.
Desde então, eu nunca parei de processar o mundo assim: lendo, escrevendo. É como se todos os cadernos e teclados de computador que passaram por mim depois tivessem virado aquele quadrinho: as letras me serviam para descrever o mundo de fora e o de dentro (porque a cabeça da gente também é um mundo - bom, pelo menos é o nosso mundo). De certa forma, a mentoria dele persiste igualmente, porque meu pai foi e é meu incentivador mais animado (junto com a minha mãe) e meu crítico mais amoroso (já que aqui a minha mãe fica devendo, corujona que é), do ABC aos artigos científicos.
No fim das contas, o texto que era pra ser sobre o meu pai acabou sendo quase totalmente sobre mim - é meio difícil evitar isso, já que 50% de mim é ele -, mas se não fosse por essa paixão que herdei (que também está nos outros 50% de mim que são a minha mãe), quantas coisas eu deixaria de conhecer, quanto eu deixaria de construir... É tanto quanto eu sou grata ao pai pelo incentivo. Por não ter medo nem vergonha de ser artista, sensível, leitor inveterado, irreverente, firme nos seus posicionamentos, frouxo nas suas risadas. Por ser a pessoa que ele é. Por ser meu pai e ter passado (e passar) tantas coisas legais pra mim.
Feliz dia pra ele, homenageado, e pra mim por tê-lo.