[joana e seus textos]
Joana Guerreiro
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Dia do Sexo

 

Nery e Ivone Guerreiro, meus avós paternos, no final da década de 60

 

 

          O dia do sexo, para mim, é um exemplo real da expressão “seria cômico se não fosse trágico”: foi o dia em que minha avó paterna morreu. Também morreram para mim os trocadilhos com sessenta e nove e quaisquer insinuações de práticas lascivas nessa data - quem é que entra no clima pensando na avó morta? (Pensando bem, melhor nem perguntar. Não há o que não haja).
          Que as notícias ruins vem a cavalo, isso todo mundo sabe, mas outro fato menos comentado é que elas não curtem vir no lombo de um pangaré solitário. Notícia ruim gosta é de chegar de cavalaria, trazendo outras notícias ruins que quiseram aproveitar a viagem. Nem bem perdeu a esposa, meu avô também partiu alguns meses depois, nas primeiras horas do dia 30 de dezembro. Achei a data uma escolha bem elegante por parte da Morte; já que tinha fodido o dia do sexo, que mantivesse o Natal e o Ano Novo intactos para nossa família. Meu avô foi sepultado em cima da minha vó. Enquanto fechavam a sepultura, olhei para o meu pai. Não ri, nem ele, mas a mera troca de olhares já estabelecia que tínhamos achado aquilo engraçado. Meu avô com certeza também achou.
          Uma coisa interessante sobre o meu pai é que ele nasceu apenas dez meses depois da irmã mais velha. Meu avô adorava contar sobre o dia em que fez o meu pai. “Tua avó me disse ‘eu vou engravidar’, e eu disse que não tinha problema, que queria ter um filho perto do outro.” Mal sabia ele que, dessa “bolinada” (palavra dele), surgiriam pelo menos mais quatro pessoas - um filho, depois uma neta e duas bisnetas. Com o passar das décadas, a noite de amor dos meus avós poderá ter dado origem a uma geração inteira. A verdade é que muita gente precisou fazer o canguru perneta (quem diabos inventou essa expressão?) para que eu pudesse existir. Só até meus bisavós, isso dá catorze pessoas, mas tem muito, muito mais. Sexo é vida!
          Provavelmente eu vou continuar sem transar no dia 06/09, mas é bem mais reconfortante pensar que morrer é consequência de estar vivo e estar vivo é consequência do sexo, logo, ceifar a vida de alguém no dia do sexo é uma escolha bem humorada da Morte, uma grande brincadeira com a Vida, um lembrete de que uma não existe sem a outra. Resta agradecer por todas as transas que eventualmente culminaram na minha existência, pois existir é algo de que gosto muito.
          Viva o sexo!

Joana Guerreiro
Enviado por Joana Guerreiro em 06/09/2026
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Joana Rocha Guerreiro tem 23 anos, vive no Rio Grande do Sul e escreve desde que se conhece por gente. É servidora pública e estudante de Direito porque a vida requer sustento; é escritora porque a alma também o necessita. 

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