[joana e seus textos]
Joana Guerreiro
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Flores e crônicas

Bem primaveril, não é?

 

 

          Sou uma mulher gaúcha muito clichê: gosto de flores e de Erico Verissimo. Em Ana Terra, um dos capítulos mais famosos de sua obra mais famosa, a trilogia O Tempo e o Vento, a personagem-título e seus pais, Maneco e Henriqueta Terra, discutem sobre as histórias que conta Pedro Missioneiro, aquele por quem Ana virá a se apaixonar. “Pode ser bobagem, mas é bonito”, diz a mãe de Ana, ao que seu marido responde: “e sem serventia, como quase tudo que é bonito.” Entendo o ponto de vista de seu Maneco Terra, homem pragmático e endurecido pela vida, mas aqui preciso dar razão a dona Henriqueta: a gente precisa de umas bobagens bonitas às vezes. Flores decorativas são, mesmo, uma bobagem bonita, e cheguei à conclusão de que gosto delas pela mesma razão que sou cronista. 

          Hoje, 13 de setembro, é meu aniversário, e meu marido - que não escreve, mas sabe me ler muito bem - trouxe um buquê de “flores primaveris”, segundo ele mesmo definiu. As flores, assim como as crônicas, tanto podem ser preparadas e cultivadas quanto brotar espontaneamente no meio do lixo. Bosta é adubo para plantas e experiências desagradáveis viram anedotas na letra dos cronistas. Penso que o cronista é o poeta do cotidiano, o sujeito que coloca em prosa as pequenas manifestações poéticas que a sua sensibilidade capta no dia a dia. 

          A realidade é dura e nos endurece; aquele que é feliz e bobalhão o tempo todo está em negação ou é totalmente alheio ao que acontece à sua volta. No outro extremo está o sujeito que não sorri de volta para um bebê porque está pensando na alta do dólar. A dor e a delícia são inerentes à experiência humana, e assim, não faz sentido exigir que tudo sirva a um propósito prático, sob pena de não haver delícia, apenas dor. 

          Que desgosto que é lavar panelas nesse frio, e que alegria ver meu buquê no vaso sobre a mesa a cada vez que coloco mais louça no escorredor. Deixem em paz meu buquê primaveril na minha cozinha caótica.


 

 

Joana Guerreiro
Enviado por Joana Guerreiro em 13/09/2026
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Joana Rocha Guerreiro tem 23 anos, vive no Rio Grande do Sul e escreve desde que se conhece por gente. É servidora pública e estudante de Direito porque a vida requer sustento; é escritora porque a alma também o necessita. 

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